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Vírus como protagonistas

by Profa. Helena Beatriz de Carvalho Ruthner Batista - Professora do Programa de Pós-graduação em Biossistemas da UFABC.


Os vírus já foram responsáveis por diversas epidemias e/ou pandemias ao longo da história. A Varíola, erradicada em 1980, chegou a ser considerada como uma das principais causas de mortalidade infantil, antes do desenvolvimento da vacina, por Edward Jenner em 1776. A Febre Amarela que no Brasil assim como em diversas partes do mundo causou não somente perdas humanas, mas também grandes prejuízos econômicos antes do desenvolvimento da vacina, ainda instigou lendas como a do “Navio fantasma”. Tal lenda reportava-se a uma nau cuja tripulação tinha sucumbido a febre amarela por isso vagava pelos mares na região do Cabo da Boa Esperança. Os relatos sobre a Raiva vêm dos primórdios da humanidade e apesar desta enfermidade estar controlada em diversas regiões, aproximadamente 60.000 pessoas ainda morrem em decorrência da infecção pelo vírus da raiva, principalmente na Ásia e na África. A Gripe Espanhola ao fim da 1º Guerra Mundial, causada pelo vírus influenza H1N1 assolou a humanidade e acredita-se que aproximadamente 30% da população mundial tenha sido infectada, com números de mortos variáveis conforme a região.


A atual pandemia de coronavírus, como já demonstrado, não foi a primeira e certamente não será a última pandemia que traz os vírus como protagonistas. O fato desta pandemia estar em curso nos impede de falar sobre números precisos, mas esta já tem sido considerada tão devastadora quanto aquela causada pelo vírus H1N1 em 1918, o chamado influenza pandêmico, responsável pela Gripe Espanhola. A COVID 19 que assim como o H1N1 causa sintomatologia respiratória, é a doença grave causada pelo coronavírus SARS-COV-2. Principalmente por se tratar de um vírus novo, não há vacina disponível e apesar do empenho de diversos grupos de pesquisa em todo mundo, ainda vai demorar algum tempo para que esta vacina seja desenvolvida, avaliada e possa chegar ao mercado.


A indisponibilidade de vacina e a alta capacidade de disseminação dos coronavírus, associados à falta de tratamento específico tornam ainda mais importantes as ferramentas para diminuição da taxa de contato entre a população e assim reduzir a transmissão do vírus. É importante ressaltar que o SARS-COV-2 poderá causar basicamente três cenários de infecção: assintomática, sintomatologia leve ou sintomatologia grave -COVID-19, porém quanto maior o número de infectados, maior será o número de indivíduos que desenvolverão a forma grave da infecção. Cabe salientar que deve ser considerada não somente a gravidade da doença, mas a capacidade de prestar assistência médica a todos os infectados no momento necessário. Neste contexto, a necessidade de implantação das intervenções não farmacêuticas (NPIs, do inglês: non-pharmaceutical interventions) para a redução da mortalidade da COVID-19 torna-se fundamental para que melhores resultados sejam alcançados. Duas estratégias fundamentais utilizadas como NIPs são a mitigação e a supressão. A mitigação prevê o isolamento de casos suspeitos, quarentena e distanciamento social, a fim de reduzir o pico da doença e a demanda pelos serviços de saúde, não necessariamente impedindo a propagação da doença, mas protegendo quem está em maior risco. Já na supressão é previsto um cenário mais radical, com o isolamento social, considerando o isolamento da população inteira, sendo necessário fechamento de escolas e universidades e tem por objetivo reverter o crescimento da epidemia, reduzindo o número de casos. Cada uma destas medidas tem seus desafios, vantagens e desvantagens, mas sua eficácia depende principalmente de como as pessoas reagem as medidas impostas por cada uma das ações. Vale ressaltar que tais medidas devem ser adotadas a fim de diminuir a velocidade de propagação do vírus e assim evitar a sobrecarga dos sistemas de saúde.


No Brasil o primeiro caso da doença foi confirmado em fevereiro de 2020 e a partir da 12º semana epidemiológica houve um salto no número de casos e ocorreram os primeiros registros de óbito em decorrência da infecção, segundo dados do Ministério da Saúde. Apesar da recomendação de isolamento social, no País, em algumas cidades esses índices não têm sido satisfatórios o que pode comprometer o esforço de indivíduos que seguem as orientações. Outro fator que pode contribuir para a maior ou menor disseminação da doença no Brasil, estão relacionados aos fatores sócio econômicos da população, o que pode se refletir em diferença no acesso a informação sobre a infecção, acesso a equipamentos de proteção individual, além obviamente do acesso ao sistema de saúde. Esta disparidade faz com que o Brasil apresente diferentes realidades com relação ao controle e disseminação da COVID-19. O que podemos afirmar até o momento é que as medidas de distanciamento ou isolamento social associadas aos bons hábitos de higiene podem contribuir para que os prejuízos ocasionados pela atual pandemia no Brasil sejam minimizados. Além disso, os ensinamentos adquiridos nesta pandemia poderão ajudar na prevenção e no combate de novos surtos, epidemias ou pandemias que terão os vírus como protagonistas futuramente.

Gurgel CBFM. 1918: a gripe espanhola desvendada? Rev Bras Clin Med São Paulo. out-dez;11(4):01-06, 2013;

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